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Vamos falar sobre adoção?

Essa semana, mais especificamente no dia 25 de maio, comemora-se o Dia Nacional da Adoção. E precisamos falar sobre adoção…

Ainda existe muito preconceito e desconhecimento sobre a adoção, ainda que nos últimos tempos ela esteja sendo discutida e tenha maior visibilidade em nossa sociedade. Podemos perceber isso em filmes e novelas, que normalmente trazem histórias de vinculação adotiva. Mas ainda há quem, por desconhecimento ou por puro preconceito, acha que a filiação adotiva é de segunda categoria, que o sangue fala mais alto e que aquela criança no futuro pode se tornar um infrator, ou que só se pode adotar depois de tentar, e/ou ter, um filho biológico. E ainda, há quem pense que se deve adotar apenas bebês, pois eles são mais facilmente “moldados”, para que sua história pregressa não se torne um obstáculo. Os lanços sanguíneos ainda são muito fortes e valorizados na nossa cultura. E, também, como dito antes, ainda há muito tabu sobre a adoção.

Enquanto isso, muitas crianças passam suas vidas em abrigos devido a esses preconceitos sociais.  Dentre as adoções realizadas, na maioria dos casos, os candidatos a pais adotivos querem bebês, de até 2 anos, e brancos. Pensando no perfil do nosso país, onde a minoria é de pessoas brancas, é de se imaginar que não é esse o perfil que existe nos abrigos, o que contribui para que as crianças cresçam e fiquem abrigadas, até completar 18 anos, quando devem deixar a casa institucional.

Precisamos refletir sobre o impacto de tais concepções sobre a adoção, assim como pensar que o vínculo com um filho, seja ele adotivo ou biológico, é construído, é da relação e surge a partir desta. Até o filho biológico, ao nascer, é um ser desconhecido, que não sabemos quem se tornará ou como vai ser, fisicamente e também em termos de que caminhos seguirá. O mesmo acontece com o filho adotivo. Até adotá-lo, você não sabe como ele é e quem é, não sabe que caminhos percorrerá. Cabe aos pais a tarefa da educação, de mostrar valores, guiar e dar suporte aos filhos. No caso das adoções, é possível que a criança tenha vivido momentos pesados em suas famílias e contexto de origem (já que, se nada tivesse ocorrido, ela não teria ido para abrigos, sido destituída e, portanto, apta para ser adotada) e, especialmente nas adoções tardias (quando a criança tem mais de 2 anos), é possível que a criança se lembre de algumas situações ou tenha marcas, psicológicas ou físicas, mas nada impede que toda essa história pregressa seja ressignificada a partir do amor e da relação construída na filiação adotiva.

Mas, é preciso que para isso, os pais estejam prontos para adotar, sejam bebês ou crianças mais velhas, e abertas para receber uma criança que não necessariamente se parecerá com vocês, que teste limites inicialmente, e que, pelo fato de ser adotiva e, possivelmente, fisicamente diferente, gerará questionamentos ou comentários de pessoas próximas. Para lidar com tudo isso, é preciso preparação e reflexão. Mas, acima de tudo, é preciso estar aberto ao amor, tanto o que dará quanto o que vai receber. Afinal, uma vez concluído o processo de adoção, aquela criança é filha, na qual não devemos fazer distinção entre biológico e adotivo.

Alguns pontos são importantes de se pensar no momento em que se decide adotar. Dentre eles, é importante, além da flexibilidade ao receber a criança, exposta anteriormente, é importante pensar que um novo membro será acrescido à família e isso implicará em uma adaptação, uma mudança de rotina. Ainda, é possível mudar o nome da criança, legalmente falando, mas se a criança for mais velha é preciso pensar que ela pode estar acostumada e gostar do nome que tem, se reconhecendo através dele. É preciso refletir, então, se é realmente importante mudar o nome da criança e ainda podemos levar em consideração a opinião dela, perguntando se ela gostaria, e, se sim, quais sugestões traz. E é preciso estar atento, também, para não reforçar comportamentos na criança que podem indicar que ela sempre faça tudo para agradar os novos pais, não sendo autêntica nessa relação, pois é compreensível que, na tentativa de pertencer ao novo lar e nova família, ela queira agradar. Ou, ainda, no caminho contrário, ela teste muitos os limites, na tentativa de constatar se, de fato, frente à dificuldades, esses novos pais não vão desistir dela.

E, é preciso conversar sobre adoção com a criança. É um direito dela saber que  foi adotada e qual é a sua história. A depender de sua idade, essa história pode ser contada com mais detalhes ou não, mas é importante que os pais lidem bem com a adoção para estarem prontos para conversar sobre ela com o filho, não tornando a temática um tabu dentro da própria família. Dependendo da história pregressa da criança e das marcas deixadas nela, um profissional de psicologia também pode ser um suporte para auxiliar criança e/ou pais após a adoção.

 

P.S.: Em caso de interesse de se candidatar, procure a Vara da Infância e Juventude, que pode esclarecer sobre o processo de adoção, os cursos preparatórios, os documentos necessários, assim como a equipe está preparada para acolher dúvidas e questionamentos.