A Psicologia é uma ciência muito ampla, com diversas escolas e abordagens. Portanto, para entender a abordagem fenomenológico-existencial, é preciso saber um pouco sobre o seu surgimento. O terreno era o do Romantismo alemão, que surgiu no século XIX, e se contrapõe ao Iluminismo francês, colocando em pauta que o ser retornasse sua atenção para si mesmo, na busca pelo autoconhecimento. A Fenomenologia surge, então, tomando para si esses ideais da individualidade romântica e com a oposição ao Positivismo, que imperava no cotidiano e na ciência da época.

A gênese da Fenomenologia pode ser associada a dois grandes pensadores: de um lado, Wilhelm Dilthey e, de outro, Franz Brentano. Wilhelm Dilthey (1833-1911), foi o grande nome do Historicismo alemão, além de ter se engajado na chamada “teoria da concepção de mundo” ou Weltanschauung. Com Dilthey formaliza-se um pensamento que recoloca o sujeito humano num contexto essencialmente social e histórico: somos seres históricos e constituídos na e pela história. Contudo, é a partir do trabalho de Franz Brentano (1838-1917), filósofo alemão nascido em Marienberg, que a Fenomenologia se estrutura. Brentano designa que a consciência humana se estrutura dinamicamente – em atos – que remetem ao mundo. É, pois, característica do fenômeno humano se reportar continuamente ao mundo. “O homem será visto e analisado como sendo um construtor de significado através da sua percepção de mundo” (Maciel, 2003, p.36).

Dilthey faz a distinção entre os fenômenos humanos e os da natureza, mas bebe, também, de fontes como Heráclito, pensador da Idade Antiga. É uma filosofia que se ramifica em diferentes pensadores e correntes.

Em nossa prática, desde a graduação, optamos por adentrar em Martin Heidegger, ancorando nossa visão de mundo e homem em sua filosofia, realizando uma transposição desta para a prática clínica psicológica. É importante apontar que a Gestalt-terapia, enquanto uma abordagem fundamentada nas ideias humanistas-existenciais-fenomenológicas, apresenta também entre seus pressupostos, as ideias heideggerianas, influenciando a forma de olhar e compreender o homem e o mundo.

A Gestalt-terapia sofre as mais diversas influências que vão desde a psicanálise às crenças orientais. No entanto, há três correntes filosóficas que muito influenciaram o desenvolvimento e embasamento desta abordagem: o humanismo, o existencialismo e a fenomenologia. O humanismo vê o homem como o centro, pois só o homem existe, as coisas são; assim como preocupa-se em valorizar o ser humano, lidando com o que de positivo tem cada pessoa, que é única, e com seu potencial de vida. O homem é, assim, o centro, com valor positivo capaz de se autogerir e autorregular-se. Já a contribuição do Existencialismo nos fala sobre o homem ser o responsável por sua própria existência, e essa liberdade de poder-ser quem se é, permite-o projetar o que será da sua vida, sendo a vida um projeto inacabado, que está em um eterno processo de devir. Essa liberdade em poder escolher vem permeada por angústias e incertezas, tão próprias do existir humano. No que tange à influência da Fenomenologia, é permitir que o outro se mostre, se manifeste, desvele seus próprios sentidos. Buscamos o “como” e não o “porquê”, pois nosso interesse está em compreender a experiência e o sentido que o outro atribui, não em explicar, com relações de causa-efeito.

Heidegger nos traz, em sua filosofia do ser, a conexão entre os seres e tudo ao seu redor, não havendo separação entre o mundo, os demais seres e coisas, ele mesmo e o tempo. Somos, para ele, Dasein ou Presença que, lançados no mundo, nos tornamos ser-no-mundo-com-os-outros.

Somos, então, seres de relação. E, na relação, emerge o cuidado (não o cuidado como conhecemos no senso comum, que denota dedicação, mas que fala sobre um modo de ser), seja ele para com outros seres, seja entre o ser e as coisas ao seu redor. Esse cuidado pode emergir de diferentes formas e até o não-cuidado é considerado uma forma de cuidar do outro.

Heidegger traz também a ideia de finitude, na qual a nossa existência é sempre um projeto que está em constante construção e mudanças, encerrando-se apenas com a morte. E, esta, nos gera angústia. Porém, ao se deparar com a finitude e a angústia é que tomamos caminhos mais próprios, assumimos posições que realmente trazem sentidos para nossa existência e podemos agir de maneira mais autêntica. Heidegger nos coloca que transitamos entre os modos autênticos e inautênticos de ser durante toda nossa existência e que é a angústia que nos movimenta para sair da inautenticidade.

Desta forma, para Heidegger, não somos seres estagnados, somos um contínuo vir-a-ser, estamos em constante formação e mudança, influenciados pela trama de relações que nos envolvem e pelas escolhas que fazemos e sentidos que atribuímos, seja no modo autêntico ou inautêntico. Sendo assim, somos todos projetos, seres de abertura para as demais possibilidades que estão ao nosso redor. É, portanto, a partir da nossa história, cotidianidade e existência que compreendemos o ser.