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O Quarto de Jack

    Esses dias, assisti o filme “O Quarto de Jack”, uma história ficcional baseada no livro “Quarto” da escritora irlandesa Emma Donoghue. A trama conta a história de Joy, uma jovem que foi sequestrada e mantida em cativeiro por anos. Ela era constantemente abusada pelo sequestrador e acaba tendo um filho dele, Jack. A criança nasceu no cativeiro e nunca conheceu outro mundo que não fosse o quarto.  Aos cinco anos, Jack nunca teve contato com outra pessoa sem ser sua mãe, tudo que existe fora dali não é tido como real para ele. O que Jack não sabe é que sua perspectiva do mundo foi moldada por sua mãe.

     Jack estava acostumado com o quarto, única realidade que tinha lhe sido apresentada e, por isso, para ele era muito difícil imaginar que havia um mundo cheio de cores, formas e sensações fora dali. A experiência da criança no quarto nos convida a pensar sobre as nossas vidas. Quantas vezes nos percebemos enraizados em crenças que não nos permitem ver novas possibilidades? A oportunidade de conhecermos novos ângulos do mundo muitas vezes nos amedronta e paralisa. É preferível e aparentemente mais seguro seguirmos vivendo em nossos quartos, lugares já conhecidos, do que arriscar algo novo.

     Sair das velhas mentalidades e construções por mais que possa ser libertador, faz parte de um processo doloroso. A mesma mãe que ajudou Jack a construir suas crenças, o impulsiona a desconstruí-las e a sair do cativeiro que o aprisiona. Lembro-me da experiência do menino, ao entrar em contato com o novo mundo, a luz do sol ofuscava os seus olhos ocasionando nele uma espécie de cegueira, era preciso usar óculos escuros para se proteger. As pernas que tentavam correr ainda pareciam fracas, era preciso fortalecer as pernas que o conduziam a um novo caminhar. Tudo ali lhe encantava e lhe causava espanto.

     Por diversas vezes Jack pede a mãe pra voltar ao quarto. Será que isso também não acontece com a gente? Quando nos vemos em situações que nos ameaçam ou que ainda não aprendemos a lidar. É comum desejarmos voltar para uma posição mais cômoda, para um lugar já conhecido, mesmo depois de termos decidido alçar voo. Essa situação do filme me faz refletir como muitas vezes somos tentados a pensar que a fuga pode ser a solução de nossos problemas, no entanto, mesmo depois de fugir essas questões continuam nos atormentando. Foi assim que aconteceu com a mãe de Jack, mesmo depois de sair do cativeiro continuou sendo atormentada pelas lembranças. Será que não seria melhor fazer como o filho quando escolheu olhar novamente para o cativeiro, com novos olhos e assim se despedir, fechar aquele ciclo?

     Por fim, gostaria de terminar esse texto com uma das cenas mais marcantes do filme: quando os dois, mãe e filho, após já terem estado em um longo processo de readaptação ao mundo real desde sua libertação, regressam ao quarto onde ficaram presos por anos. Jack entra, percebe a falta de alguns móveis e diz “Ele parece pequeno agora”, “Não é mais o Quarto, talvez porque a porta esteja aberta. Sem a porta ele não é o Quarto”. Naquele momento, Jack nos convida a um novo olhar pra aquela história, o poder romper com o quarto é como o cortar o umbigo umbilical que o nutria, mas também o aprisionava, é abrir espaço para um novo começo, para um mundo cheio de possibilidades.


Autor: Mariana Duarte – Psicóloga Clínica