02
dez

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O dia em que nos reencontramos

(Por Élida Cunha)

Depois de tantos anos não acreditei que ainda conseguíssemos nos encontrar, te confesso. Na verdade, eu tinha esperanças, mas os fatos não me deixavam mais criar essa expectativa. Após um longo ano de reaproximação, desabafos e muitos conselhos, enfim marcamos. Não, não podia ser na sua cidade. Lembra que me prometi não ir aí enquanto você não viesse aqui? E você, bem, acho que não se sentia muito a vontade de estar aqui também.

Marcamos entre nossas cidades. Combinamos dia e horário. Fiquei ansiosa, confesso. Foram muitos anos entre um encontro e outro! Cheguei cerca de quinze minutos antes e fiquei olhando o mar, pensando em tudo e em nada, ao mesmo tempo. Quando olhei para o lado, lá vinha você. Logo abri um largo sorriso, não acreditava que estávamos ali!

Você sorriu ao me ver e nos abraçamos. Queria poder guardar tudo em um potinho, para não esquecer nunca mais: seu cheiro, seu toque, sua voz.

Sentamos-nos, ainda olhando admirados um para o outro. Você quebrou o gelo e já foi dizendo “nem acredito que estamos aqui!”. Sorri e te respondi que já fazia nove anos desde que nos conhecemos. “Nove anos, acredita?!”.

Conseguimos conversar sobre tudo, como se soubéssemos cada curva que pegou a vida um do outro. Consegui te falar, olhando no olho, como você me magoou, como doeu, como foi difícil te perdoar e voltar a falar com você.

Você enxugou minha lágrima, baixou o olhar e disse que, na época, não me compreendeu. “Não tínhamos nada, é… nada de verdade, eu digo. Não pensei que eu fosse te fazer tão mal, apenas estava seguindo minha vida, já que não podíamos ficar juntos. Mas hoje consigo ver que tudo podia ter acontecido de uma forma diferente. Eu poderia ter te falado antes, eu sei que eu tinha essa abertura com você. Mas não sei dizer ao certo como as coisas foram acontecendo, mas aconteceram. E quando olhei para o lado, você não estava mais lá. Que falta você me fez, Menina. Que falta! Passava horas, dias, semanas, pensando em você, em como te queria ali. Mas era confuso para mim também, não sei em que sentido te queria: se como namorada ou se como amiga companheira. Você tem razão, hoje consigo ver, que eu me sentia tão sozinho que suguei tudo que você podia me dar e, depois, simplesmente segui minha vida e te deixei ali. Mas me entenda, te juro que não fiz por maldade; não menti, eu realmente te amava…”

Antes que pudesse concluir a frase, eu falei, com um sussurro amargurado “você era muito criança. Muito imaturo…”

“E você era impulsiva e controladora”. Olhei para ti surpresa e sorri. Era verdade, eu realmente era assim. Até meio louca, talvez.

Sei que, ao longo desses tantos anos, ensaiamos nosso encontro por diversas vezes, mas não era a hora. Costumo pensar assim: simplesmente não era a hora.

Decidimos caminhar na beira da praia. Meio que sem querer seguramos as mãos e não queríamos mais soltá-las. Quando novamente sentamos, passou um carrinho de som que tocava Eduardo e Mônica. Imediatamente sorrimos e dissemos em uníssono “Nossa música!”.

“Sempre, absolutamente sempre, lembrava de você quando ouvia essa música. A raiva até passava e me pegava com um sorriso bobo no rosto”.

“Sabe, Pequeno, independente de qualquer coisa, preciso te agradecer. Você trouxe luz e cor à minha vida. Sempre trouxe”. Você apenas me olhou nos olhos, beijou minhas mãos, me deu um sorriso doce e complementou “você também, acredite”.

Ficamos ali, sentados na beira da praia, minha cabeça encostada em seu ombro e nossos dedos entrelaçados. Meia hora se passou assim até que quebrei o silêncio. “O que fizemos com nossas vidas? Por que estamos nessa rua suja, deserta e sem saída? Que relacionamentos são esses que temos cultivado com essas pessoas durante os últimos dois anos?”, te perguntei.

“Não sei te dizer”.

“Será que é amor o que sentimos por eles?”

“Pequena, te juro que me pergunto isso todos os dias. Não sei. E esse não saber tem me corroído”.

“E o que vamos fazer?”

“Também não sei”

“Você não sabe de nada”, te provoquei sorrindo.

“Olha quem fala, nem você”, me disse você apertando meus dedos, brincando.

Conversamos por mais umas horas e tínhamos que voltar às nossas vidinhas. “Como vai ser agora? O que fazemos com nossa história?”, você me perguntou, com o olhar perdido.

“Não sei. Ela sempre vai existir, mas não sei se devemos continuá-la ou apenas guardar em uma caixa de recordações”.

Você concordou. Despedimos-nos com um longo abraço.

“Te amo”.

“Eu também”.

E fomos caminhando em sentidos opostos.

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Élida Cunha

Especialista em Psicologia Clínica, gestalt-terapeuta e mestranda pela UFRN

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