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O corpo que (não) habito

Há uma infinidade de temas que geram meu interesse, mas sem dúvida falar sobre corpo faz meus olhos brilharem.

E aí que, por esses dias, li a história de uma pessoa que já foi magra e hoje está acima do peso.Ela relata que as pessoas costumam fazer comentários maldosos quanto ao seu corpo, colocando apelidos pejorativos, palpitando que ela precisa emagrecer e a questionando “você já foi magra e linda, como se deixou chegar a esse ponto?”.

Sabem o que ela diz sobre isso? Que o período no qual as pessoas diziam que ela era tão magra e bonita, foi justamente no seu período de anorexia, depressão, automutilação e repetidas tentativas de suicídio. “Eu me odiava”, ela disse.

Complementa contando que, hoje, ela se sente verdadeiramente feliz, satisfeita consigo mesma, e isso, claro, inclui a satisfação com seu corpo.Uma história comum, como tantas outras.

Só que tem algo que me chamou muito mais atenção. Ela diz que quando perde peso – geralmente porque teve uma gripe ou algo parecido – as pessoas a elogiam “nossa, emagreceu. Que linda”, “Parabéns” e por aí vai.

E é aí que ela disse uma frase que não saiu da minha cabeça: “quem disse que dizer que eu emagreci é um elogio? Eu não quero emagrecer!” Estamos tão acostumados a cultuar um corpo sem-dobrinhas que é comum nos admirarmos com um discurso como esse.

Trazendo o filósofo Heidegger para nos acompanhar nessa conversa, ele afirmava que só podemos habitar algo que construímos. E talvez, só agora, a garota do texto esteja de fato habitando seu próprio corpo, o corpo que, enfim, ela pôde construir. Estejamos, então, construindo nosso corpo, nossa morada, para, então, poder habitá-lo verdadeiramente.

Por um mundo onde todos os corpos possam desfilar por aí sem causar espanto ou repulsa!

Permita-me habitar o MEU corpo. Permita-se habitar o SEU corpo.

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Élida Cunha  –
Especialista em Psicologia Clínica Humanista Existencial Fenomenológica.
Gestalt-terapeuta.
Mestranda em Psicologia – UFRN.

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