04
jul

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avo-e-neta

Noventa e quatro!

Noventa e quatro… a princípio é apenas um número qualquer. Já pararam para pensar na infinidade de coisas que um número pode representar? Ele pode ser qualquer coisa e significar tanto ou nada. Quando sentei na frente do computador para escrever tinha a ideia de falar sobre o desapego e sobre o quanto somos tão apegados à determinadas coisas e pessoas que algumas vezes esquecemos até de nós mesmos, mas o número noventa e quatro não parava de aparecer fazendo-se presente em minha cabeça a todo instante e o texto sobre desapego simplesmente não saiu.

Afinal, por que noventa e quatro? O que este número tem de tão especial que me impediu de pensar em qualquer outra coisa? Neste momento ele significa para mim muito mais do que apenas uma representação quantitativa. No próximo dia dez de julho minha família estará comemorando mais um ano de vida do meu avô e nos reuniremos em sua casa no interior do estado para este dia tão especial e importante, mais para nós do que para ele, que em seus noventa e quatro anos não percebe mais as coisas ao seu redor como antes. Portanto, muito mais do que a quantidade de anos de vida, este número significa a presença dele em nossas vidas e, inevitavelmente, o tempo que ainda nos resta para compartilharmos com ele. É duro pensar assim? Parece um pensamento mórbido para uma data onde espera-se apenas felicidade? Infelizmente as pessoas morrem, somos todos humanos e necessariamente finitos e, apesar de não termos certezas ou garantias nenhuma de quem de nós pode morrer primeiro, é inevitável que aos noventa e quatro anos você esteja cada vez mais próximo desse fim.

Meu avô foi um grande contador de histórias. Sua vida nos foi apresentada inúmeras vezes ao longo de nossa infância e adolescência através de sua narrativa rica em detalhes dos momentos mais importantes pelos quais passou. Desde o seu tempo no exército durante o período da II Guerra Mundial até suas andanças entregando correspondências e intimações quando foi Oficial de Justiça. Ter o meu avô tão próximo de nós e crescer com a sua presença preocupada e protetora foi uma experiência incrível e maravilhosa, aprendi muito com ele e agradeço por ter tido esta oportunidade. Ouvir suas histórias repetidamente, em todas as visitas à sua casa, podia parecer algumas vezes cansativo e repetitivo, mas hoje tenho a certeza de que jamais as esqueceremos. Foi o tesouro mais precioso que nos deu, o seu legado em forma de narrativa.

Foi duro e ainda é vê-lo hoje passando a maior parte do tempo deitado em uma cama ou sentado sem entender ou se dar conta do mundo girando e acontecendo ao seu redor. Olhar nos seus olhos e sentir que não me conhece mais, que apesar de ficar feliz com a visita, não sabe mais o meu nome e nem que sou sua neta. É difícil saber que não vou mais sentar ao seu lado no sofá e ouvir pela centésima ou milésima vez a mesma história contada da mesma forma e com os mesmos detalhes. Comemorar mais um ano de vida seu é um motivo de grande alegria, não nego isso, mas é também deparar-me com o fato de que as coisas nunca permanecem as mesmas e de que a vida é fluida e incerta. Quando nos demos conta de que você estava envelhecendo? As coisas foram acontecendo de forma tão lenta e sutil que quando percebemos pareceu ter sido do dia para a noite, mas não foi. Aos poucos as histórias não tinham mais os mesmos detalhes de sempre, as lacunas foram aumentando, percebemos o quanto ficava irritado quando era questionado por não ter lembrado de determinada coisa ou acontecimento. Naquele momento sua memória já estava lhe pregando peças e nós só viemos perceber tão depois que foi um choque imenso. As limitações físicas começaram a ficar evidentes também e foi aí que a realidade se apresentou de forma tão dura e cruel. Você foi nos perdendo aos poucos e isso ainda é muito difícil de aceitar e lidar. Hoje, tudo o que queremos é que sinta que é amado mesmo que não saiba quem somos ou o que fomos para você.

Tenho orgulho de ser sua neta e de ter sido tão amada e cuidada por você durante toda a minha vida. Noventa e quatro não é para mim apenas mais um ano de vida que você completa, é a sua presença na minha vida com seus ensinamentos, sua força, sua coragem, sua intransigência, seu orgulho e, acima de tudo, seu amor por nós, que sempre foi e ainda é incontestável.


Autor: Zara Barbosa – Psicóloga Clinica.