A clínica pela perspectiva fenomenológica é, antes de tudo, uma atitude. Atitude diante da vida e dos outros, em qualquer contexto. Envolve uma disposição de acolher e compreender a inquietação do outro. E para isso, é preciso mergulhar no seu mundo, entender os sentidos que o outro atribuí, e, assim, afetar e ser afetado por ele.

Afetar, sim, e não procurar distanciar-se do outro. Pelo contrário, tanto na prática clínica de base fenomenológica heideggeriana e de base gestáltica, é preciso envolver-se com o outro, habitar o seu mundo, estando o terapeuta ciente de suas concepções, mas sem procurar o distanciamento que outras abordagens clínicas defendem. Assim, nesse fazer clínico ao qual nos propomos e acreditamos, procuramos compreender a existência do outro, nos deixando afetar e habitando essa existência (mesmo que momentaneamente), para, dessa forma, permitir um espaço para que o outro se reconheça e possa emergir em um discurso mais próprio, singular.

A prática clínica na Fenomenologia integra, dessa forma, o que expomos brevemente como sendo a filosofia da qual partimos (a Fenomenologia Heideggeriana e, da tríade gestáltica, humanismo-existencialismo-fenomenologia) e o nosso objetivo com o Núcleo Desvelar, sendo, então, um espaço de desvelamento dos sentidos e que ilumina novas possibilidades que surgirão nas vidas das pessoas a partir da abertura que a clínica proporciona.

Por sua vez, a gestalt-terapia, em sua prática clínica, destaca a relação terapêutica, estabelecida entre o paciente e o psicólogo, como essencial, na qual deixamos o outro livre para se mostrar; não como a de quem procura o outro, mas a de quem deixa que o outro apareça. O que facilita o processo de partilha e desvelamento de suas dúvidas, tristezas, expectativas, entre outros. Abrindo, assim, espaço para que ele possa compartilhar seu mundo interno e reconquistar as conexões que foram se perdendo ao longo da vida, assim como busca integrar suas partes já tão fragmentadas pela nossa experiência cotidiana.

A prática clínica tem se mostrado um espaço de acolhimento essencial para quem a procura, e que têm gerado novos sentidos na vida dessas pessoas. É comum, inicialmente, a busca por um diagnóstico, ou o questionamento de em quanto tempo a terapia trará benefícios; reflexos da nossa sociedade atual, imediatista, que impõe a felicidade como objetivo rápido a ser alcançado e demonstrado. Mas, aos poucos, as pessoas entendem qual o lugar da psicoterapia fenomenológico-existencial heideggeriana e da Gestalt-terapia, e o quanto estas respeitam o tempo do ser e não o tempo que a sociedade (ou a própria pessoa, agindo de forma inautêntica, mediada pela coletividade social) impõe. Nesse sentido, pelo seu caráter de compreender e permitir a expressão da existência do outro, ela é acessível a todas as idades e demandas.